O pão nosso de cada dia! Sobre “pãodemias”, fermentos e motoboys.

Virou moda, agora, todo mundo fazer pão. É um tal de trocar receita, fazer live, montar blog, postar foto em rede social…Tem até gente que já virou “bread influencer”, de tanto que demonstra entender das massas, dos amassos, dos assamentos, dos tempos das fermentações e sabe-se lá mais o quê que faça parte da arte e do ofício da produção caseira do pão!  Timelines agora se parecem com desfiles de moda de inusitadas e inovadoras padarias digitais.

Até psicólogo já deu depoimento sobre o fenômeno! Não apenas para nos convencer de que não estamos todos, afinal, nos transformando nos loucos e nas loucas do pão, mas para conferir sentido e dignidade à essa florescente e promissora indústria caseira. Para os anti-alienistas de plantão, fazer pão seria uma forma de experimentarmos (ou simplesmente acreditarmos que temos), algum tipo de controle sobre a loucura e a incerteza que tomou conta de nossos dias. Assim, o empreendimento farináceo, ao mesmo tempo que permite aflorar sentimentos de combate ao estresse, angústia, ansiedade e depressão, também colabora para fortalecer certa autoestima que assegura que ainda temos algum lugar no mundo. Santo pão!

Para quem não acredita assim sem mais nem menos nesse falatório, as estatísticas infalíveis do “Google Trends” confirmam: desde março, as receitas de pães caseiros passaram a ser as mais procuradas na internet, transformando-se em valiosíssimos “trend topics” – medida infalível do sucesso da exposição digital de qualquer tema, coisa ou pessoa –, mais do que dobrando o número de acessos em relação ao mesmo período do ano anterior. Se, no período pré-pandêmico, a busca por receitas de pães caseiros ocupava a modesta 8ª posição no ranking das pesquisas de dedicados cozinheiros e cozinheiras, durante a crise do coronavírus que atravessamos, ela conquistou, imbatível, o pódio, superando a caçada aos modos de preparo dos primos mais nobres como os bolos, os pães-de-queijo, os pasteis, tortas, panquecas, empadões, esfihas e lazanhas, entre outros membros da família trigal.

No Instagram, o número de postagens com a hashtag #pãodemia já ultrapassa a casa dos muitos milhares, feito até então conquistado apenas pelo fenômeno conhecido internacionalmente como “food porn”[1]. Não há o que negar: o pão se transformou no protagonista insubstituível da cozinha pandêmica.

Mas, as análises fenomenológicas não param por aí. O pão faz parte do universo de nossas memórias afetivas (pelo menos dos mais antigos e nascidos no interior). Reconecta-nos com as lides domésticas de amorosas  mães e avós, fornos a lenha e outras lembranças menos presentes ou até mesmo inexistentes para as gerações mais jovens, que já cresceram comendo insossos pães de forma empacotados. Trata-se daquilo que no jargão chic de um respeitável “connaisseur” se denomina “confort food”, algo assim como uma cozinha das memórias e dos afetos.

Em outra dimensão mais séria, temos que considerar que o pão é, por excelência, o alimento bíblico, das religiosidades ancestrais, da comunhão e da partilha. Não por outro motivo, o pão se transforma em hóstia, no corpo de Cristo, oferecido nos momentos mais solenes do irmanamento. O pão está presente em praticamente todas as culturas conhecidas, evidentemente que com pequenas variações de ingredientes, formas de preparo e tipos de cozimento. Mas no fundo, tudo não passa do mesmo bom e velho pão, assim como um tipo de “farinha do mesmo saco globalizada”. Tem pão que assa dentro do forno, outros assam por fora, como os naans indianos.  Tem pão que sequer leva fermento, como o pão ázimo, alimento da fuga da escravidão do Egito que constrói a base da tradição judaico-cristã, ao mesmo tempo que outros esbanjam as artes, ciências e técnicas da fermentação.  Na gastronomia brasileira contemporânea, deu, de fato, certa febre de fermentos e fermentações. É um desparrame de kombucha, kefir, tibico, jun, kimchi, levain e fermentados láticos de legumes, que não acaba mais.

No período quarentenário que atravessamos, o pão reassume, absoluto, a sua mediação religiosa. Se lembramos bem, a palavra religião vem do latim “religare”, que significa reconexão entre as dimensões do humano, demasiado humano, com o superior, o além, o transcendente. Assim, voltamos a amassar e assar pão para nos reabitarmos a nós mesmos, nos reconectarmos com nosso íntimo e nos congregarmos com nossos semelhantes, quer em casa, quer no Zoom, a plataforma digital queridinha da hora, organizadora dos cafés da tarde ou happy hours desse nosso infindável isolamento social.

Ao par de tudo isso, tenho cá eu meus próprios motivos para sovar o pão. Sim, porque me transformei em um exímio sovador de pão.

Nesses tempos bicudos, a sensação de poder bater forte e cadenciadamente em algo tem valor terapêutico. Não sou lutador de boxe, nem tenho os petrechos necessários para tanto. Mas a massa do pão revelou-se ótima substituta para o extravasamento de sensações reprimidas de frustação, raiva e desconsolo.  Já que não sou ema e não costumo bicar ninguém, descarrego no pão minha ira Amazônica, minhas apreensões democráticas, meu azedume quanto às incertezas intelectuais, culturais e educativas desse triste País.

Diz o senso comum (ou apenas o bom senso, já não me lembro a diferença), que, ao ser feito, o pão assimila os humores, dores e calores de quem o amassa. Assim, me preocupo muitíssimo em peneirar, contrapor e dosar minhas emoções, críticas, indignações e tresloucados arroubos antifascistas ao prepara-los. Se no meu dia a dia me vejo obrigado a comer do pão que o diabo amassou nas tristes padarias do planalto e de outros palácios menos poderosos, no meu pão cotidiano e doméstico alinhavo e pondero outros ingredientes e pitadas de esperança, afeto e luta.

O pão nosso de cada dia, entre os produtos da categoria das massas alimentícias, é imbatível, sempre foi e sempre será. No dia 16 de outubro de cada ano, desde 2000, por iniciativa da União Internacional de Padeiros e Afins, celebramos o Dia Mundial do Pão. Simbolicamente, essa é também a mesma data em que se comemora o Dia Mundial da Alimentação, criada com propósitos políticos intencionalmente mais pronunciados, na busca de conscientizar e inspirar líderes e nações a lutarem contra a fome e a iniquidade alimentar planetária. Para a América Latina e o Caribe, estimativas da FAO em conjunto com a CEPAL, apontam que, com o agravamento das condições de vida impostas pela pandemia, 83,4 milhões de pessoas vão passar a viver em condições de extrema pobreza, sendo direta e fortemente impactadas pela fome.

A mania de fazer pão em casa traz graça e bonança para a indústria dos ingredientes e das matérias primas utilizadas nessa faina cerealífera. Os moinhos estimam aumento de até 25% no consumo de farinhas especiais para uso doméstico, desde o início da pandemia. Os produtores de ovos não ficam atrás e cravam projeções de crescimento de outros 30%. São números que encantam, por um lado, enquanto por outro apagam outras estatísticas, essas, sim, mais tristes e preocupantes. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip), no mesmo período, o faturamento das padarias experimentou queda de 40%.

Na sociedade do abismo, os motoboys entregadores de aplicativos – que se transformaram nos novos boias-frias urbanos – e que abastecem de comida meio mundo, afirmam que na maior parte das vezes trabalham até 14 horas por dia sem terem acesso a uma alimentação minimamente digna, tampouco a um lugar para uma comensalidade humanizada. Suas parcas e inconstantes refeições são feitas no meio fio ou sobre seus veículos, temperadas com o medo de perder o chamado e a precária ocupação. Pesquisas sombrias mostram que nas suas marmitas e mochilas (essas novas formas dos antigos embornais), as simples bolachas são bem mais frequentes do que os pães.

Que a pandemia que nos inspira a assarmos nossos pães domésticos também nos mobilize à ação de socorro, solidariedade e comprometimento com os mais necessitados.

Por ora, que todos e todas tenham um ótimo final de semana …  e bóra amassar pão aí, minha gente!!!

Crônica de Antonio Hélio Junqueira [1].

Originalmente publicada no Jornal GGN, em 24/07/2020.  https://jornalggn.com.br/artigos/o-pao-nosso-de-cada-dia-sobre-paodemias-fermentos-e-motoboys-por-antonio-helio-junqueira/?fbclid=IwAR0Ux7_fYK41o9aGxngVgYfsb5LoA1L5OezKe8m96e1vpxZcktBoDkyfjDo

[1] Doutor em Ciências da Comunicação (ECA/USP), com pós-doutorado e mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM/SP). Engenheiro Agrônomo (ESALQ/USP). Pós-graduado em Desenvolvimento Rural e Abastecimento Alimentar Urbano (FAO/PNUD/CEPAL/IPARDES) e em Organização Popular do Abastecimento Alimentar Urbano (FEA/USP). Pesquisador e consultor de empresas em Inteligência de Mercado, Estudos do Consumo, Tendências de Mercado e Marketing. Sócio-proprietário da Junqueira e Peetz Consultoria e Inteligência de Mercado.

[2] JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Food porn: entre ludicidades e patologias. https://jornalggn.com.br/sociedade/food-porn-entre-ludicidades-e-patologias-por-antonio-helio-junqueira/. 27 de dezembro de 2018.

Gastropolítica: comer, lutar, resistir e viver.

O termo gastropolítica – usado para designar as dimensões políticas e socioculturais do ato de comer –, não é tão novo assim. Foi cunhado, em 1981, pelo antropólogo indiano Arjun Appadurai – conhecido por seus estudos sobre as dimensões culturais da globalização – em um estudo sobre o papel da comida na organização social no sul da Índia.  Em seu texto original, o autor identificava conflitos ou competições por recursos culturais ou econômicos específicos, materializados em transações sociais em torno de alimentos.

Nos dias de hoje, contudo, parece mais do que oportuno o resgate dessa palavra e dos conceitos a ela associados.

Texto de Antonio Hélio Junqueira.

Link para a mate´ria completa: https://jornalggn.com.br/artigos/gastropolitica-comer-lutar-resistir-e-viver-por-antonio-helio-junqueira/

O preço dos alimentos continua a subir

Foi publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo- 15 (IPCA-15) de Abril 2020. Produzido pelo Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor – SNIPC o índice mede a inflação dos preços ao consumidor com base na variação dos preços praticados nas principais regiões metropolitanas do país.

Os dados divulgados reforçam aquilo que já tem sido identificado como um dos principais efeitos da pandemia, o aumento do preço dos alimentos. O IPCA-15, que abrange a variação da segunda quinzena de março à primeira quinzena de abril registrou o aumento do preço de alimentos e bebidas em 2,46%, da alimentação no domicílio em 3,14% e da alimentação fora do lar em 0,94%. Em relação à inflação dos grupos de alimentos nota-se o aumento enérgico do preço dos alimentos in natura ou minimamente processados. Cereais, leguminosas e oleaginosas em 3,59%, tubérculos, raízes e legumes em 22,1%, hortaliças e verduras em 11,89%, leite e derivados em 3,37%.

O setor de alimentos e bebidas obteve neste período a maior variação dentre os segmentos analisados pela pesquisa,. O Índice Geral foi de -0,01%, habitação 0,12%, artigos de residência -3,19, vestuário 0,01%, transportes -1,47%, saúde e cuidados pessoais -0,32%, despesas pessoais -0,28%, educação -0,01% e comunicação -0,30%. Em relação à variação acumulada no ano, alimentos e bebidas também obtiveram a maior média, com 4,59%, sendo o Índice Geral do período 0,94%.

Saiba mais sobre este debate clicando aqui.

Para acessar o Índice na íntegra, clique aqui.

GOSTO, IDEOLOGIA E CONSUMO ALIMENTAR: PRÁTICAS E MUDANÇAS DISCURSIVAS SOBRE PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS – PANC

A pesquisa explora o fenômeno da intensa midiatização das chamadas Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no cenário da gastronomia brasileira contemporânea, visando apontar e discutir movimentos de mudança nas práticas discursivas relacionadas à produção e consumo desses vegetais. Para tanto, elegeu um corpus constituído por um conjunto amplo e diversificado de textos midiáticos de diferentes gêneros de discurso produzidos, postos em circulação e consumidos no país, entre os anos de 2014 e 2018, sobre o qual foram aplicados os princípios teórico-metodológicos da Análise do Discurso em seus desdobramentos e conexões com a mudança social. Foi possível observar alterações significativas tanto na lexicalização dos termos relacionados a essas plantas, quanto na constituição de novas formações discursivas transformadoras das ordens sociais do discurso, em luta pela instituição de novas hegemonias alimentares.

Segue o link para o artigo: https://periodicos.unb.br/index.php/les/article/view/21772

A sociologia da culinária brasileira de uma perspectiva materialista

Carlos Alberto Dória é uma das principais referências nos estudos da Culinária Brasileira, em sua perspectiva inovadora, tem contribuído em desmistificar dogmas e discursos arraigados em interpretações equivocadas sobre a alimentação e na construção de uma Sociologia da Culinária Brasileira, capaz de interpretar os sentidos da transformação material do alimento. O autor publicou livros como “Formação da Culinária Brasileira: escritos sobre a cozinha inzoneira” e “A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer”, este com a coautoria de Marcelo Bastos, ambos pela Editora Três Estrelas, “Estrelas no céu da boca: escritos sobre a culinária e a gastronomia” e “A culinária materialista : construção racional do alimento e do prazer gastronômico” pela Editora SENAC São Paulo.

Em 2019, publicou na Revista Inter-Legere o artigo “A sociologia da culinária brasileira de uma perspectiva materialista” na qual trata dos pressupostos específicos da Sociologia Culinária, como parte dos domínios da Sociologia da Alimentação. Em coautoria de Joana Pellerano, publicaram o artigo “Comida vs Allimento: cultura e nutrição a partir do programa paulistano “Alimento para todos”” na Revista do Centro de Pesquisa e Formação, no qual tratam da tentativa do governo de São Paulo em distribuir um granulado nutritivo feito de produtos próximo da validade para a população em vulnerabilidade social.

Dória é doutor em Sociologia pela Unicamp e especializado na sociologia da alimentação e na sociologia do conhecimento.

Clique aqui para ler o artigo sobre a Sociologia Culinária

Clique aqui para ler o artigo sobre a Comida vs Allimento

DÓRIA, Carlos Alberto. Estrelas no céu da boca: escritos sobre a culinária e a gastronomia. São Paulo: Editora SENAC, 2006.

DÓRIA, Carlos Alberto. A culinária materialista: construção racional do alimento e do prazer gastronômico. São Paulo: Editora SENAC, 2009.

DÓRIA, Carlos Alberto. Formação da Culinária Brasileira: escritos sobre a cozinha inzoneira. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2014.

DÓRIA, Carlos Alberto; BASTOS, Marcelo Corrêa. A culinária caipira da Paulistânia: a história e as receitas de um modo antigo de comer. São Paulo: Editora Três Estrelas, 2018.

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­­DÓRIA, Carlos Alberto. A sociologia da culinária brasileira de uma perspectiva materialista. Revista Inter-Legere, v. 2, n. 25, p. 1-10, 2019.

DÓRIA, Carlos Alberto; PELLERANO, Joana. Comida vs Allimento: cultura e nutrição a partir do programa paulistano “Alimento para todos”. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, n. 08, p.120-130, 2019.

Em busca da ordem do caos: a lógica do capital na determinação do que é bom para comer

Andrea Santos Baca, membro da RedePAC, e Gloria Idalia Baca Lobera publicaram em 2018 na Revista Geografares um artigo sobre como o capital tem operado na determinação daquilo que é bom para comer. Partindo de uma análise marxista, as autoras utilizaram os conceitos do fetichismo da mercadoria e da lógica do lucro, revelando como o capital tem produzido uma cacofonia alimentar e impondo aquilo que é bom para comer. Andrea é economista, doutora em Economia pela UFF e professora da Universidade Federal do ABC, suas pesquisas abrangem as temáticas da critica da economia politica, o sistema agroalimentar mundial e as alternativas para a produção e consumo de alimentos. Gloria Idalia Baca Lobera é mestre em Ciências (Física) pela UNAM e professora titular do Departamento de Produção Econômica da Universidade Autônoma Metropolitana-Xochimilco.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

SANTOS, Andrea; BACA, Gloria Idalia. Em busca da ordem no caos: o que é bom para comer no capitalismo do século XXI. Geografares, n. 25, p. 82-104, 2018.

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Food Porn: imagens, sentidos sociais e virtualização do prazer de comer

Antônio Hélio Junqueira, membro da RedePAC, publicou em 2019 na Revista Discursos Fotográficos, um artigo sobre o fenômeno do Food Porn, no qual investiga as relações dos impactos e sentidos sociais da midiatização do prazer do comer. O autor é Engenheiro Agrônomo e doutor em Ciências da Comunicação, ambos pela Universidade de São Paulo, tem se dedicado como professor e pesquisador aos Estudos do Consumo, Ciências Comportamentais, Comunicação e Marketing e da Alimentação. Atualmente tem se dedicado na relação entre a alimentação e a cibercultura.

Clique aqui para ler o artigo na íntegra.

JUNQUEIRA, Antonio Hélio. Food Porn: imagens, sentidos sociais e virtualização do prazer de comer. Discursos Fotográficos, v. 15, n. 26, p. 171-197.

A crise econômica e sanitária pode reforçar o consumo de alimentos ultraprocessados.

As transformações dos hábitos alimentares no Brasil não é algo novo e tem se intensificado desde o final do século XX. Como demonstra a Avaliação Nutricional da Disponibilidade Domiciliar de Alimentos no Brasil, realizada pelo IBGE, a partir dos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, houve um incremento da participação dos ultraprocessados e a diminuição dos alimentos in natura ou minimamente processados no total de calorias consumidas nos domicílios brasileiros. A pesquisa identificou que, em média, a participação na composição nutricional dos alimentos in natura ou minimamente processados passou de 53,3% em 2002-2003 para 49,5% e a participação de ultraprocessados que era de 12,6% passou para 18,4% na edição atual da pesquisa.

O impacto dessas transformações está diretamente associado aos rendimentos dos trabalhadores, as modificações nos sistemas agroalimentares e as formas contemporâneas de consumo. Isso significa que quanto maior são os salários de uma família, maior serão as suas possibilidades de escolha de consumo dentro desse circuito e quanto menor os rendimentos, maiores serão seus esforços para a realização de suas necessidades e de seus desejos de consumo.

O atual sistema alimentar brasileiro é resultado de uma reestruturação produtiva iniciada na década de 70 e intensificada a partir da década de 90, na qual integra de forma estrutural a produção e o abastecimento ao capital financeiro, que passa a comandar todo este sistema. Essa financeirização do sistema agroalimentar acarretou mudanças estruturais em toda a cadeia, como: a produção de commodities o invés de comida¹; o aumento da financeirização das terras e da natureza; o aumento ou a volatilidade dos preços dos alimentos a partir da especulação; os supermercados como o principal meio de abastecimento dos segmentos da alimentação, higiene, limpeza e de utilidades domésticas; a diminuição do papel de outras formas de comercialização como as feiras livres e mercados municipais; e o aumento da disponibilidade de alimentos ultraprocessados para os consumidores.

A reestruturação veio acompanhada também de mudanças nos próprios comensais. Os novos padrões de consumo alcançados fizeram com que os consumidores reequacionassem sua vida a partir dessas transformações do sistema agroalimentar e pela compressão do espaço e do tempo de uma sociedade cada vez mais urbanizada que reforça as desigualdades, ou seja, reequacionar a realização de suas necessidades do estômago e do imaginário a partir do seu posicionamento na sociedade.

Nesse sentido, houve a emergência de novas formas de consumo, o aumento na disponibilidade de alimentos – principalmente de alimentos com maior tempo de prateleira-, uma homogeneização dos produtos e a sua disponibilidade de forma contínua. Com efeito, esse sistema resultou no desaparecimento de particularidades locais dos sistemas culinários, a incorporação de traços e elementos culturais em seu circuito e também a disseminação em escala global de determinados produtos. Essa mudança no gosto e a nova disponibilidade alimentar resultaram na diminuição do consumo de alimentos socialmente referenciado, dos alimentos in natura e minimamente processados e no aumento do consumo de ultraprocessados.

Os alimentos ultraprocessados se tornaram um campo fértil para a ampliação dos mercados das empresas multinacionais, devida à homogeneização e barateamento da sua produção, a facilidade de transporte e armazenamento e o aumento da variedade de produtos a partir de modificações mínimas em sua composição. Este processo resultou tanto no aumento da disponibilidade dos ultraprocessados, uma maior estabilidade dos seus preços às variações do mercado e a tendência de queda de seus preços em comparação com os alimentos in natura ou minimamente processados. De acordo com uma pesquisa publicada na Revista Public Health Nutrition, em 2026 os alimentos ultraprocessados irão se igualar aos preços dos in natura ou minimamente processados, e em 2030 serão mais baratos, R$4,34 por quilo, contra R$5,24 dos alimentos in natura ou minimamente processados.

Mas, como a crise econômica e sanitária pode reforçar o consumo de ultraprocessados?

O cenário dessa crise econômica e sanitária afeta diretamente as rendas das famílias, principalmente mais pobres, que terão o desafio de conseguir minimamente realizar suas necessidades básicas, portanto, ficando mais vulneráveis aos preços praticados nos supermercados, a disponibilidade dos produtos e a quantidade e a qualidade dos alimentos adquiridos.

A crise e a necessidade do isolamento social tem afetado todo o sistema agroalimentar, em menor ou em maior grau, podendo ter uma influência cada vez maior nos preços, na disponibilidade dos alimentos, nas formas de produção e de aquisição. Nesse sentido, os alimentos in natura como frutas, legumes e verduras, cuja produção, logística e armazenamento exigem maiores cuidados, provavelmente serão os alimentos com maior aumento de preço nos próximo período, juntamente com os alimentos da cesta básica como arroz e o feijão, devido o aumento da estocagem de alimentos nos domicílios.

Os alimentos com uma integração maior com a cadeia global, como os ultraprocessados, provavelmente serão menos afetados em comparação com os alimentos in natura e minimamente processados, devido ao volume de sua produção, a proximidade do processamento e industrialização com os centros urbanos e por suas formas de armazenamento e distribuição.

O aumento do consumo de ultraprocessados poderá ter uma relação com outros fatores para além do sistema de produção e de abastecimento. O isolamento social e a crise trouxeram o medo da possibilidade de diminuição dos padrões de consumo para os mais abastados, o que tornou os ultraprocessados um terreno fértil para a estocagem e manutenção de seu consumo afluente. Outro elemento importante é a satisfação das necessidades do imaginário social através da associação da comida com a ideia de conforto, o que pode aumentar o consumo de alimentos ultraprocessados como chocolates, sorvetes e outros alimentos como um alento à atual conjuntura. Do outro lado, a crise trouxe consigo o medo da fome de forma mais concreta para a população mais pobre, a perda de rendimentos associada ao aumento do preço dos alimentos pode modificar de forma substancial o consumo.

Ao analisarmos a inflação dos alimentos no mês de março, quando se iniciou de fato a pandemia no Brasil, nota-se o aumento geral dos preços dos alimentos em relação à inflação, mas principalmente dos alimentos in natura ou minimamente processados. O Índice Geral da Inflação em março de 2020 foi de 0,07%, a média geral da alimentação nos domicílios foi de 1,4%, dos alimentos ultraprocessados 0,34% e dos alimentos in natura ou minimamente processados foi de 1,97%. Observa-se também que a variação dos preços dos alimentos in natura ou minimamente processados tem tido uma elasticidade maior do que dos alimentos ultraprocessados, o que pode provocar uma essa instabilidade no consumo desses alimentos, principalmente neste momento de crise. 

Do universo de alimentos analisados pelo IPCA em março de 2020, 60 itens ou grupos de alimentos tiveram sua inflação maior que a média da alimentação no domicílio, sendo 53 (88,33%) desses alimentos in natura ou minimamente processados e 07 (11,67%) alimentos ultraprocessados, processados ou de uso culinário. Em relação aos grupos de alimentos com média superior aos dos domicílios estão os tubérculos, raízes e legumes com 14,14%, seguidos pelas hortaliças e verduras com 3,7%, frutas com 2,69%, sal e condimentos com 2,13%, bebidas e infusões com 1,47%.

Como pode ser observado, o preço dos alimentos continuará sendo um fator determinante na alimentação. A variação dos preços de alimentos in natura como dos tubérculos, raízes, legumes, hortaliças, verduras e frutas irá afetar diretamente o seu consumo pelos mais afetados essa crise, que, além de enfrentar preços mais caros pelos motivos já citados, terão que driblar o aumento abusivo dos preços praticados em diversos estabelecimentos.

Se o aumento do consumo de ultraprocessados já era uma realidade, a pandemia pode ser um fator que acelera ainda mais essa tendência nos próximos meses. Isso significa que ela pode reforçar as desigualdades e a cacofonia alimentar, deixando em margens mais estreitas a realização do consumo e a segurança alimentar da população mais pobre, ao mesmo tempo, sendo como um alento na abundância do consumo daqueles que podem pagar.

Olívio José da Silva Filho


[1] Essa reestruturação produtiva privilegia a produção de commodities agrícolas, principalmente de culturas flexíveis, para diversas indústrias e finalidades. Isso significa uma mudança substancial na lógica da produção agrícola e da segurança alimentar, ao passo que a produção não tem necessariamente mais uma relação com a comida e o comer em si, mas com qualquer tipo de finalidade que seja capaz de gerar mais lucro.

Manifesto da RedePAC ao Povo Brasileiro sobre a alimentação em meio ao Covid-19

Com o avanço da pandemia no Brasil, o isolamento social tem sido a forma mais eficaz para o controle da contaminação do COVID-19 e, consigo, trouxe incertezas sobre a garantia do funcionamento do sistema alimentar, na produção, no abastecimento, na comercialização e no consumo. De acordo com a pesquisa realizada com 1.142 entrevistados de 262 favelas brasileiras pelo Instituto Data Favela, publicada em 24 de março de 2020, 72 % da população das favelas não teriam renda nenhuma caso percam suas atuais fontes de renda e que para 86% irá faltar rendimentos para a aquisição de itens básicos, como a comida.

A pandemia tem sido potencializada pelas tentavas de afrouxamento do isolamento social pelo Executivo Federal através do discurso do salvamento econômico e do abrandamento da letalidade do vírus; pelas desigualdades sociais e a fragilidade que o isolamento social não associado com políticas que promovam a efetivação das necessidades humanas básicas da população; pelas limitações dos equipamentos públicos de saúde e de assistência social; e pelo desaparecimento do aparato estatal na coordenação e gestão do sistema alimentar brasileiro.

Os cenários nas cidades vão se complicando na medida em que o tempo passa e as consequências das restrições de mobilidade se fazem sentir mais agudamente. Seja em cidades de grande e médio porte, seja nos milhares de pequenos municípios, os efeitos de uma crise econômica prolongada que acentua carências imediatas e demais vulnerabilidades sociais desde a eclosão da crise global de 2008/2009, e agora, de uma escancarada emergência pela epidemia.

Impõe-se como imperativo para o momento a adoção de medidas que tenham no seu DNA o gene da solidariedade, este, longe de ser um componente do filisteísmo, mas como um indicador importante do grau de civilidade que marca uma sociedade. Assim, temos a convicção de que esse componente deve ser adotado como um princípio que oriente as políticas emergenciais a serem acionadas por municípios e demais entes do aparelho de Estado, pelos movimentos sociais, organizações políticas, associações e todos aqueles que tem o compromisso com a vida humana.

Desse modo, propomos ações que podem ser adotadas para o enfrentamento da crise e na garantia da Soberania e Segurança  Alimentar do povo:

1. A defesa do SUS e a atuação junto aos profissionais de saúde na divulgação de informação e cuidados no combate ao coronavírus.

2. A garantia do acesso à alimentação das famílias, principalmente de crianças e idosos, através da distribuição de refeições para as populações mais vulneráveis e a ampliação dos serviços de alimentação dos restaurantes populares para a distribuição de marmitas.

3. A construção de canais que garantam e fortaleçam as formas locais de produção e abastecimento alimentar.

4. O fomento à agricultura familiar a partir do Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, através de redes locais de distribuição e comercialização de alimentos e o cumprimento da Lei nº 13.987 de 7 de abril de 2020, que autoriza a distribuição dos alimentos do Programa Nacional de Alimentar Escolar às famílias dos estudantes.

5. A liberação de crédito emergencial e anistia de dívidas de agricultores familiares e camponeses.

6. A distribuição de Equipamentos de Proteção Individual e de materiais de higiene que garantam a segurança dos produtores e reforço dos protocolos de higiene no abastecimento alimentar.

7. A distribuição de cestas de alimentos através do aparato estatal e a organização de redes de coleta e distribuição de alimentos.

8. O incentivo à reeducação alimentar para evitar o desperdício de alimentos através do estímulo da criatividade e das formas de aproveitamento integral dos alimentos.

Rede de Pesquisadores em Abastecimento Alimentar, Comercialização e Consumo.