A crise econômica e sanitária pode reforçar o consumo de alimentos ultraprocessados.

As transformações dos hábitos alimentares no Brasil não é algo novo e tem se intensificado desde o final do século XX. Como demonstra a Avaliação Nutricional da Disponibilidade Domiciliar de Alimentos no Brasil, realizada pelo IBGE, a partir dos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018, houve um incremento da participação dos ultraprocessados e a diminuição dos alimentos in natura ou minimamente processados no total de calorias consumidas nos domicílios brasileiros. A pesquisa identificou que, em média, a participação na composição nutricional dos alimentos in natura ou minimamente processados passou de 53,3% em 2002-2003 para 49,5% e a participação de ultraprocessados que era de 12,6% passou para 18,4% na edição atual da pesquisa.

O impacto dessas transformações está diretamente associado aos rendimentos dos trabalhadores, as modificações nos sistemas agroalimentares e as formas contemporâneas de consumo. Isso significa que quanto maior são os salários de uma família, maior serão as suas possibilidades de escolha de consumo dentro desse circuito e quanto menor os rendimentos, maiores serão seus esforços para a realização de suas necessidades e de seus desejos de consumo.

O atual sistema alimentar brasileiro é resultado de uma reestruturação produtiva iniciada na década de 70 e intensificada a partir da década de 90, na qual integra de forma estrutural a produção e o abastecimento ao capital financeiro, que passa a comandar todo este sistema. Essa financeirização do sistema agroalimentar acarretou mudanças estruturais em toda a cadeia, como: a produção de commodities o invés de comida¹; o aumento da financeirização das terras e da natureza; o aumento ou a volatilidade dos preços dos alimentos a partir da especulação; os supermercados como o principal meio de abastecimento dos segmentos da alimentação, higiene, limpeza e de utilidades domésticas; a diminuição do papel de outras formas de comercialização como as feiras livres e mercados municipais; e o aumento da disponibilidade de alimentos ultraprocessados para os consumidores.

A reestruturação veio acompanhada também de mudanças nos próprios comensais. Os novos padrões de consumo alcançados fizeram com que os consumidores reequacionassem sua vida a partir dessas transformações do sistema agroalimentar e pela compressão do espaço e do tempo de uma sociedade cada vez mais urbanizada que reforça as desigualdades, ou seja, reequacionar a realização de suas necessidades do estômago e do imaginário a partir do seu posicionamento na sociedade.

Nesse sentido, houve a emergência de novas formas de consumo, o aumento na disponibilidade de alimentos – principalmente de alimentos com maior tempo de prateleira-, uma homogeneização dos produtos e a sua disponibilidade de forma contínua. Com efeito, esse sistema resultou no desaparecimento de particularidades locais dos sistemas culinários, a incorporação de traços e elementos culturais em seu circuito e também a disseminação em escala global de determinados produtos. Essa mudança no gosto e a nova disponibilidade alimentar resultaram na diminuição do consumo de alimentos socialmente referenciado, dos alimentos in natura e minimamente processados e no aumento do consumo de ultraprocessados.

Os alimentos ultraprocessados se tornaram um campo fértil para a ampliação dos mercados das empresas multinacionais, devida à homogeneização e barateamento da sua produção, a facilidade de transporte e armazenamento e o aumento da variedade de produtos a partir de modificações mínimas em sua composição. Este processo resultou tanto no aumento da disponibilidade dos ultraprocessados, uma maior estabilidade dos seus preços às variações do mercado e a tendência de queda de seus preços em comparação com os alimentos in natura ou minimamente processados. De acordo com uma pesquisa publicada na Revista Public Health Nutrition, em 2026 os alimentos ultraprocessados irão se igualar aos preços dos in natura ou minimamente processados, e em 2030 serão mais baratos, R$4,34 por quilo, contra R$5,24 dos alimentos in natura ou minimamente processados.

Mas, como a crise econômica e sanitária pode reforçar o consumo de ultraprocessados?

O cenário dessa crise econômica e sanitária afeta diretamente as rendas das famílias, principalmente mais pobres, que terão o desafio de conseguir minimamente realizar suas necessidades básicas, portanto, ficando mais vulneráveis aos preços praticados nos supermercados, a disponibilidade dos produtos e a quantidade e a qualidade dos alimentos adquiridos.

A crise e a necessidade do isolamento social tem afetado todo o sistema agroalimentar, em menor ou em maior grau, podendo ter uma influência cada vez maior nos preços, na disponibilidade dos alimentos, nas formas de produção e de aquisição. Nesse sentido, os alimentos in natura como frutas, legumes e verduras, cuja produção, logística e armazenamento exigem maiores cuidados, provavelmente serão os alimentos com maior aumento de preço nos próximo período, juntamente com os alimentos da cesta básica como arroz e o feijão, devido o aumento da estocagem de alimentos nos domicílios.

Os alimentos com uma integração maior com a cadeia global, como os ultraprocessados, provavelmente serão menos afetados em comparação com os alimentos in natura e minimamente processados, devido ao volume de sua produção, a proximidade do processamento e industrialização com os centros urbanos e por suas formas de armazenamento e distribuição.

O aumento do consumo de ultraprocessados poderá ter uma relação com outros fatores para além do sistema de produção e de abastecimento. O isolamento social e a crise trouxeram o medo da possibilidade de diminuição dos padrões de consumo para os mais abastados, o que tornou os ultraprocessados um terreno fértil para a estocagem e manutenção de seu consumo afluente. Outro elemento importante é a satisfação das necessidades do imaginário social através da associação da comida com a ideia de conforto, o que pode aumentar o consumo de alimentos ultraprocessados como chocolates, sorvetes e outros alimentos como um alento à atual conjuntura. Do outro lado, a crise trouxe consigo o medo da fome de forma mais concreta para a população mais pobre, a perda de rendimentos associada ao aumento do preço dos alimentos pode modificar de forma substancial o consumo.

Ao analisarmos a inflação dos alimentos no mês de março, quando se iniciou de fato a pandemia no Brasil, nota-se o aumento geral dos preços dos alimentos em relação à inflação, mas principalmente dos alimentos in natura ou minimamente processados. O Índice Geral da Inflação em março de 2020 foi de 0,07%, a média geral da alimentação nos domicílios foi de 1,4%, dos alimentos ultraprocessados 0,34% e dos alimentos in natura ou minimamente processados foi de 1,97%. Observa-se também que a variação dos preços dos alimentos in natura ou minimamente processados tem tido uma elasticidade maior do que dos alimentos ultraprocessados, o que pode provocar uma essa instabilidade no consumo desses alimentos, principalmente neste momento de crise. 

Do universo de alimentos analisados pelo IPCA em março de 2020, 60 itens ou grupos de alimentos tiveram sua inflação maior que a média da alimentação no domicílio, sendo 53 (88,33%) desses alimentos in natura ou minimamente processados e 07 (11,67%) alimentos ultraprocessados, processados ou de uso culinário. Em relação aos grupos de alimentos com média superior aos dos domicílios estão os tubérculos, raízes e legumes com 14,14%, seguidos pelas hortaliças e verduras com 3,7%, frutas com 2,69%, sal e condimentos com 2,13%, bebidas e infusões com 1,47%.

Como pode ser observado, o preço dos alimentos continuará sendo um fator determinante na alimentação. A variação dos preços de alimentos in natura como dos tubérculos, raízes, legumes, hortaliças, verduras e frutas irá afetar diretamente o seu consumo pelos mais afetados essa crise, que, além de enfrentar preços mais caros pelos motivos já citados, terão que driblar o aumento abusivo dos preços praticados em diversos estabelecimentos.

Se o aumento do consumo de ultraprocessados já era uma realidade, a pandemia pode ser um fator que acelera ainda mais essa tendência nos próximos meses. Isso significa que ela pode reforçar as desigualdades e a cacofonia alimentar, deixando em margens mais estreitas a realização do consumo e a segurança alimentar da população mais pobre, ao mesmo tempo, sendo como um alento na abundância do consumo daqueles que podem pagar.

Olívio José da Silva Filho


[1] Essa reestruturação produtiva privilegia a produção de commodities agrícolas, principalmente de culturas flexíveis, para diversas indústrias e finalidades. Isso significa uma mudança substancial na lógica da produção agrícola e da segurança alimentar, ao passo que a produção não tem necessariamente mais uma relação com a comida e o comer em si, mas com qualquer tipo de finalidade que seja capaz de gerar mais lucro.

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